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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

#26


"E não há um dia em que seja diferente,
como um indício da gente falar os dois frente a frente...
Será porque tu nada sentes ou...?
Porque eu nada tento? 
Sou tímido por dentro.
À espera que o tempo revele o que ninguém mostrou..."


Toda a gente tem problemas. E quem não tem problemas também não tem o mínimo interesse. A história que cada um traz é que nos molda. E encontramos nas confusões diárias, internas ou externas, as definições das nossas personalidades, ambições e convicções. Tudo em jeito de luta permanente, que isto de ser humano pressupõe uma boa dose de persistência, quase até de dedicação. Entre o coração e a razão, existe um ringue de boxe que nunca pára de nos pôr à prova. A arte que conseguimos absorver ou criar acalma-nos no meio da batalha. O hip-hop serve o propósito de ser mais uma metáfora da vida: andamos sempre à cabeçada com qualquer coisa e fazemos da poesia o antídoto para cada mal - a inaptidão, a indecisão, a solidão, e outras coisas acabadas no mesmo ditongo. Tu sabes. Descobrir os nossos problemas (e, de certa forma, os problemas dos outros também) é o que nos faz desenhar refrões mais bonitos, simultaneamente simples e complexos, numa espécie de ritual de aperfeiçoamento perpétuo. Todos os dias, um desafio novo - procurar a tarola certa para embalar os nossos dias.

Fotografia licenciada em Creative Commons por  ::ZEN::

quarta-feira, 27 de junho de 2012

#12

Poesia é em português, que os sentidos não aprendem o amor noutras línguas. Como se o amor pudesse viver entre letras e sinais de pontuação. Dizemos que o verbo amar é indecente, mas só porque nunca o ouvimos quando queremos. Ou precisamos. Os mais românticos juram a pés juntos que o amor não se diz, sente-se. Mentira. O dicionário das sensações só fica completo quando a voz intervém, mesmo que seja baixinho. Ninguém se importa de ser amado com um sussurro, desde que não queiram fazer disso um segredo. O amor é aquele pormenor em que ninguém repara, mas está sempre ali à frente.

Fotografia licenciada em Creative Commons por Ignacio Sanz

quinta-feira, 17 de maio de 2012

#10

"Quase gosto da vida que tenho." Sempre o quase. Agora, ali, escarrapachado na capa do livro que levava para casa. Sabia bem o que tinha nas mãos: a metáfora do seu dia-a-dia a querer transformar-se em verdade absoluta. 

- O emprego de sonho que, afinal, é um pesadelo.
- O ordenado que nunca chega para as contas miseráveis que entopem a caixa do correio.
- Os sacos de compras que nunca consegue transportar porque mora sozinha.
- O amor que teima em manter-se a não sei quantas milhas náuticas de distância.

Valiam-lhe sempre os livros de poesia. E, claro, aquela porra de dedicatória com que o Natal lhe entalara o miocárdio uma vez. Enquanto o Skype não fazia o computador apitar, o tempo contava-se pela quantidade de estrofes que lia. Nos intervalos disso, engolia refrões em loop. Os versos mastigados alimentavam a saudade do que estava para vir. Os separadores no browser dividiam-se entre imobiliárias e  dicas de relações perfeitas. Daquelas bem saudáveis, como uma dieta esforçada para caber no bikini, dignas de livros de auto-ajuda. O fitness emocional não vem do outros, vem de nós, ou pelo menos é o que nos tentam impingir. No meio disto tudo, continuava a comer pipocas. Bem salgadas, que os vinte anos não a deixam engordar, mas ela sabe que esse dia há-de chegar. Dezenas de actualizações depois, o estado de espírito mantinha-se intacto e o livro ainda não tinha desfolhado. A inércia do que está para acontecer tinha tomado conta de si e os fusos horários desfiavam-lhe as expectativas. Devagarinho, assim como quem não quer a coisa. Como se o ícone verde do telefonema em código binário pudesse mudar o título do livro. Perdão, este capítulo da sua vida.

Fotografia licenciada em Creative Commons por Ryan Fanshaw Photography

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Página 129

Depois do último amor, ela tinha decidido que não ia mergulhar mais em palavras que não eram as suas. Não ia voltar a dedicar excertos de textos ou letras de canções. Não ia voltar a usar frases de outras canetas ou teclas para agarrar o amor de alguém. Não. Não. E não. 
Mas o Natal trouxe-lhe dois livros de poesia. Em vez de "Boas Festas", o postal do saco colorido trazia instruções claras, uma página específica. Não foi preciso procurar: já estava marcada com uma folha. Caligrafia pouco legível e uma dedicatória de tamanho A4. Afinal, ainda havia alguém que a fazia ficar de lágrima a descoberto no meio de um sorriso. Acabava sempre por resvalar tudo para a pieguice do amor. Paciência. Agora já estava. Tudo de novo. Uma vez mais. O medo, a insegurança e a vontade do para sempre. Mas ele deu-lhe o seu poeta preferido, aquele que ela nunca conseguia encontrar no meio de prateleiras e prateleiras de livrarias pela cidade fora - ele merecia o benefício da dúvida. Que no final de contas, o poema que ela mais tinha gostado nessa noite fora a prosa que ele encaixara nas quadrículas que marcavam o soneto da página 129.


"Não sei nunca se é isto exactamente
o que chamam amor - esta vontade
de imaginar assim a força que há-de
tornar-nos mais felizes de repente"
Fernando Pinto do Amaral