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quarta-feira, 27 de junho de 2012

#12

Poesia é em português, que os sentidos não aprendem o amor noutras línguas. Como se o amor pudesse viver entre letras e sinais de pontuação. Dizemos que o verbo amar é indecente, mas só porque nunca o ouvimos quando queremos. Ou precisamos. Os mais românticos juram a pés juntos que o amor não se diz, sente-se. Mentira. O dicionário das sensações só fica completo quando a voz intervém, mesmo que seja baixinho. Ninguém se importa de ser amado com um sussurro, desde que não queiram fazer disso um segredo. O amor é aquele pormenor em que ninguém repara, mas está sempre ali à frente.

Fotografia licenciada em Creative Commons por Ignacio Sanz

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Silêncio...

Há uma eloquência espremida nos teus dias. Podes estar inconsciente, mas o que interessa é somente falar bem. Enfiar a sílaba certa no momento exacto e desenhar universos de perfeição só com letras. Camarões, bacalhau à brás, um copo de vinho de cada lado da mesa, gelatina. Verbos e adjectivos que nunca chegam para o que se quer dizer. São os mesmos que já não sussurras, porque nunca têm a par para dançar. As palavras são como as pessoas, precisam sempre de companhia. E alguém tem de apanhar os baldes de ternura que se entornam por aqui todos os dias. Desculpa. Eu sei que tens as mãos demasiado pequenas para apanhares tudo sozinha. Mas não posso ser eu a ficar com isso tudo.

Pode ser que um dia eu te apareça sem que me peças. E te devolva todas as palavras que me deste e que eu não te soube dizer de volta. Hoje não. Não vale a pena ter trabalho se podemos não o ter. E eu sei que vens sempre ter comigo.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Escova de Dentes e Chinelos

Há qualquer coisa de extraordinariamente doce em saber que escolhi a escova de dentes vermelha por saber que ficarias orgulhoso - "Quero a vermelha, porque sou do Benfica!"

E lembrei-me da minha escova de dentes arrumada no copo ao lado da tua. E soube bem. Um dia volto a deixar os chinelos e as pantufas em tua casa de novo, para que saiba ainda melhor.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Inversão do sujeito...


Tinha sido ele a notar que estava tudo como sempre tinha sido, que o tempo passava e que os sonhos se mantinham intactos e por realizar. Já não era altura de sonhar. Eram adultos: era a altura de realizarem os sonhos, um por um, como se não houvesse mais nada a fazer. Queria amar a mulher que os tinha desenhado ao seu lado, mas a sua doçura estava transformada em simpatia e isso não chegava para montar sonhos de uma vida inteira.
Por isso, nesse dia, disse-lhe que precisava que ela voltasse. Que precisava dela, ponto. Que não a conseguia encontrar por detrás do seu sorriso e que já nada fazia sentido assim. Ela respondeu, por entre fios de arrogância, que estava igual ao que sempre fora. O medo de lhe faltar era tanto que a teimosia se dissolveu no pouco que ainda sobrava para dizer – tinha de ter razão, como em todas as outras ocasiões, que o importante era que ele visse que ainda ali estava, como sempre estivera, mesmo que ele não visse. O problema nunca poderia ser ela, não fosse haver o risco de ele deixar de gostar de si por toda a sua imperfeição. Mas, desta vez, o problema era dos dois, só que ela insistia em manter os olhos fechados.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

E-mails...

«Nunca devemos dizer 'Amo-te', a menos que seja mesmo verdade. Mas se é mesmo verdade, devemos dizer muitas vezes. As pessoas esquecem-se.»

Jessica, 8 anos

segunda-feira, 29 de junho de 2009

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Dedicação

"Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência."

Inês Pedrosa in "Fazes-me Falta"


Respeito, amor e dedicação.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Nunca vamos saber amar por palavras, mas há verbos que não merecem tanto silêncio. E os ouvidos precisam de aprender que o som é sempre muito mais que amplitude e frequência.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Amo-te?

"Deseja-se um bom dia como poderia perguntar-se se tem rebuçados para a tosse. E com o amo-te por vezes também é assim. As pessoas acham isto giro, porque ouvem nas telenovelas a dizerem-no com tal destreza, que pensam que na vida real também é assim, que quando o dizemos, também se ouve uma música de fundo que sobe à medida que nos beijamos."

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Não é defeito, é feitio

Tens a mania de não me ver quando estou ao teu lado. Dizes que precisas do teu espaço, mas é sempre naquelas alturas em que já estou à tua frente e não dá para sair dali. Afinal, não te sei ler bem. Provavelmente, nunca vou saber, que tu não deixas. Vais para o teu quarto e ficas horas perdido à volta do computador, enquanto eu olho para ti. Quero aprender-te, mas tu tens de fazer downloads primeiro. Na verdade, tens um mundo inteiro de coisas para fazer antes de teres tempo para um mimo. E, finalmente, quando o tempo chega, não és dado a afectos e não estás para te esforçar. Levantas-te da cama sem sequer dizeres bom dia, e eu fico ali: deitada, eternamente à espera que te lembres do meu beijinho. 

Não é defeito, é feitio.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Da indecência do verbo Amar

Dois pontos. 
Parágrafo. 
Travessão. 

Esquece o travessão. Estou a aprender a amar sem palavras pelo meio. Como se fosse surda, muda e não soubesse ler. Não há verbo, apenas acção. A voz fica esquecida em casa, porque não é preciso ouvir. Os olhos veêm e o coração sente. Há um discurso directo incluído no "nós", sem pausas nem entrelinhas. Vivemos a gramática dos sonhos de mãos dadas e fazemos o mundo acontecer.