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domingo, 24 de janeiro de 2010

Reticências...



Voltei a sonhar contigo esta noite. E, quando acordei, lembrei-me de tudo o que ficou por dizer. De todos os textos engavetados e dos sorrisos que ficaram retidos na alfândega. Revi todas as promessas que nunca incluíam o verbo prometer, antes de esfregar os olhos, para que ainda fosse tudo desfocado. Nos entretantos que foram ficando pelo caminho, deixou de existir o pronome pessoal da primeira pessoa do plural. Voltou tudo a ser singular, como o IRS, e o chão ficou cheio de impressos por preencher. Acho que nos perdemos na burocracia do nosso amor. E agora, mesmo de óculos já postos, o futuro é só reticências e pontos de interrogação.

"Não quero nem saber o que trazes vestido
podes nem vir a condizer,
que eu ligo bem contigo...

Quero ficar sentado a ver-te rir,
sem nada marcado,
nem pressa p'ra fugir...

Quando eu digo que gosto de ti, é pouco!
Quando eu digo que és bonita,
tu dizes que eu sou louco...

Não foi o mundo que enlouqueceu, o que tu queres sou eu...

Diz-me qualquer coisa ao ouvido:
que estás apaixonada e que queres ficar comigo!..
Eu quero ver-te sem ter motivo,
p'ra simplesmente dizer que quero estar contigo...

Canta-me uma canção qualquer
p'ra dançarmos os dois...
E o que vem depois
é de cada um..."

João Só e Os Abandonados - Canção de Isqueiro

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Da indecência do verbo Amar

Dois pontos. 
Parágrafo. 
Travessão. 

Esquece o travessão. Estou a aprender a amar sem palavras pelo meio. Como se fosse surda, muda e não soubesse ler. Não há verbo, apenas acção. A voz fica esquecida em casa, porque não é preciso ouvir. Os olhos veêm e o coração sente. Há um discurso directo incluído no "nós", sem pausas nem entrelinhas. Vivemos a gramática dos sonhos de mãos dadas e fazemos o mundo acontecer.