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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Inversão do sujeito...


Tinha sido ele a notar que estava tudo como sempre tinha sido, que o tempo passava e que os sonhos se mantinham intactos e por realizar. Já não era altura de sonhar. Eram adultos: era a altura de realizarem os sonhos, um por um, como se não houvesse mais nada a fazer. Queria amar a mulher que os tinha desenhado ao seu lado, mas a sua doçura estava transformada em simpatia e isso não chegava para montar sonhos de uma vida inteira.
Por isso, nesse dia, disse-lhe que precisava que ela voltasse. Que precisava dela, ponto. Que não a conseguia encontrar por detrás do seu sorriso e que já nada fazia sentido assim. Ela respondeu, por entre fios de arrogância, que estava igual ao que sempre fora. O medo de lhe faltar era tanto que a teimosia se dissolveu no pouco que ainda sobrava para dizer – tinha de ter razão, como em todas as outras ocasiões, que o importante era que ele visse que ainda ali estava, como sempre estivera, mesmo que ele não visse. O problema nunca poderia ser ela, não fosse haver o risco de ele deixar de gostar de si por toda a sua imperfeição. Mas, desta vez, o problema era dos dois, só que ela insistia em manter os olhos fechados.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Desarrumada...

Os joelhos esparramaram-se pelo chão, até ficar sentada, com as pernas cada uma para seu lado, como se estivesse desarrumada no meio da cozinha. Onde é que ele andaria àquelas horas? Lá fora chovia tanto como na divisão, mas o mundo só se desfez dentro de casa. Naquele micro-cosmos de mármore e azulejo, tudo era caos e tortura. Sem saber como nem porquê, as palavras já não se viam por entre as noites que partilhavam. As chaves na porta rodavam sempre da mesma forma, a mesa era posta sempre com a mesma loiça, o que se dizia era sempre o mesmo dito com os mesmos ruídos. A única coisa que ia mudando era a comida que jantavam. A certeza de que seria tudo seria eterno tinha-se tornado demasiado certa. Já não havia luta, nem conquista, porque a rotina fez com que tudo se tornasse quieto.