Mostrar mensagens com a etiqueta palavras. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta palavras. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

#21

"De tanto me devotar ao meu ofício, escrevendo e reescrevendo, corrigindo e depurando textos, mimando cada palavra que punha no papel, não me sobravam boas palavras para ela."

in Budapeste, Chico Buarque de Hollanda

O romance que estava a ler não cheirava a bossa-nova. Na verdade, era uma espécie de crónica alargada sobre histórias de amor desafinadas pela falta de polimento. Afinal, os dramas cariocas viviam alinhados com os seus: vivia fascinada com as problemáticas das relações humanas. Obcecada com o amor e com a vontade de ter um par que a acompanhasse nas restantes danças da sua vida. Mas parecia que a sucessão ininterrupta de dias e noites trazia mais complicações que facilidade. Os nós que nunca se desatavam obrigavam-na a investir mais tempo naquilo, como se o tempo significasse qualidade. O trabalho espremia-lhe a vontade e a capacidade de execução de provas de romantismo exacerbado. As declarações fugiam-lhe entre os dedos, esgotadas pelos intermináveis textos que escrevia no horário de expediente. E nem sequer podia entregar-se escondida nos poemas dos outros, que ele não lia versos. Ainda assim, a ironia do destino parecia querer alinhar aquela existência conjunta. Na ausência prolongada que a jornada laboral ditou, ele disse-lhe que pensar em futuros hipotéticos a dois o desconcentrava. "Escreve-me", ouviu-se do outro lado do telefone. Não podia dizer que não. Por isso, foi comprar um dicionário, na esperança de encontrar todos os sinónimos da palavra amor.

Fotografia licenciada em Creative Commons por babi mouton.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

#20

O problema das declarações de amor, ou de qualquer outra intenção, é que às vezes são mesmo verdade. A mania que as pessoas têm de traduzir o que sentem por palavras define grande parte do que somos, nem que seja pela doçura que imprimimos nas frases com que confrontamos o outro lado. É sempre melhor quando a ternura invade o que queremos dizer, mesmo que queiramos definir novas tragédias. No fim do dia, os poemas parecem sempre mais bonitos quando não é a nossa mão que os escreve.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

#16

Entre os telhados e os barcos da Transtejo lá ao fundo, a paisagem desenhava-se igual à dos postais mais bonitos da cidade. No topo do Hotel Mundial, respiravam-se os restos da Lisboa que sobrava depois das passeatas sem fim, que subir ao Alto da Graça ou as escadas do Metro é quase a mesma coisa. Nos intervalos da banda sonora oficial do fim de Verão, as palavras entaladas pelos anos que tinham ficado pelo caminho teimavam em atropelar-se. Não que fossem diferentes de tudo o que já se tinha dito até então. O que tinha mudado era a conjuntura, o contexto, o cenário dos acontecimentos. Tal e qual uma aula de História. Encostada ao acrílico que separava o chão da vertigem, parecia-lhe tudo demasiado estático no meio de toda a desordem. Por aquela altura, o gelo da sua super snobe água gaseificada com aroma a limão tinha derretido e começavam a doer-lhe os pés, por causa dos sapatos. Aquela coisa de mostrar a perna nunca tinha sido o seu forte. Ainda assim, manteve a postura só para continuar a conversa. Afinal, os recomeços são quase todos iguais, embora a bebida vá mudando conforme as pessoas. 

Fotografia licenciada em Creative Commons

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

#3

Às vezes há a vontade de escrever mais. E normalmente - quase quase sempre -, é só porque se anda a ler mais. As palavras são assim: tendem a dar-nos tanto quanto lhes damos a elas. Do mal o menos, parece que de vez em quando acabamos por fazer as pazes. Qual casal apaixonado. Daqueles cujo amor anda sempre ali no limiar da irritação e do que não conseguimos aturar nem por nada. Amar e odiar em uníssono na mesma frase. Amanhã logo se vê para que lado acordamos. E se o que me trazem sempre dá para alimentar uns quantos sorrisos. Como quando nos encontramos nos transportes públicos, na esperança que o subúrbio tome um bocadinho melhor conta de nós.

Foto licenciada em Creative Commons por sk8geek

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Cadernos antigos

Tinha a mania de escrever as coisas que não te conseguia dizer e, quando mudei de casa, fiz questão de lá de deixar os cadernos antigos para não tropeçar nas verdades da altura. Mas sabia que, mais cedo ou mais tarde, ia ter de empacotar tudo. Enfiar as palavras que não te soube dizer dentro de uma caixa e trazê-las para onde moro. As datas assinadas estão cheias de pó, mas há verdades que se mantêm intactas. Passado e presente. E um futuro que vai ter de ser diferente do que se quis. O pior não foi ler o que escrevi. Foi lembrar o que deixaste.

Semana de incertezas e de resoluções. O relógio não pára. E eu, às vezes, também não.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Silêncio...

Há uma eloquência espremida nos teus dias. Podes estar inconsciente, mas o que interessa é somente falar bem. Enfiar a sílaba certa no momento exacto e desenhar universos de perfeição só com letras. Camarões, bacalhau à brás, um copo de vinho de cada lado da mesa, gelatina. Verbos e adjectivos que nunca chegam para o que se quer dizer. São os mesmos que já não sussurras, porque nunca têm a par para dançar. As palavras são como as pessoas, precisam sempre de companhia. E alguém tem de apanhar os baldes de ternura que se entornam por aqui todos os dias. Desculpa. Eu sei que tens as mãos demasiado pequenas para apanhares tudo sozinha. Mas não posso ser eu a ficar com isso tudo.

Pode ser que um dia eu te apareça sem que me peças. E te devolva todas as palavras que me deste e que eu não te soube dizer de volta. Hoje não. Não vale a pena ter trabalho se podemos não o ter. E eu sei que vens sempre ter comigo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Dedicação

"Não importa o que se ama. Importa a matéria desse amor. As sucessivas camadas de vida que se atiram para dentro desse amor. As palavras são só um princípio - nem sequer o princípio. Porque no amor os princípios, os meios, os fins são apenas fragmentos de uma história que continua para lá dela, antes e depois do sangue breve de uma vida. Tudo serve a essa obsessão de verdade a que chamamos amor. O sujo, a luz, o áspero, o macio, a falha, a persistência."

Inês Pedrosa in "Fazes-me Falta"


Respeito, amor e dedicação.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Nunca vamos saber amar por palavras, mas há verbos que não merecem tanto silêncio. E os ouvidos precisam de aprender que o som é sempre muito mais que amplitude e frequência.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O que custa mesmo são os sonhos que se deixam a meio do caminho e as saudades que se empilham nas prateleiras e se enchem de pó como se o futuro nunca fosse chegar. Continuo com o cabelo comprido, como tu gostas, e não emagreci nem engordei. Estou igual ao que era quando vim embora, para que não me estranhes quando voltar. Mesmo assim, desculpa, que houve coisas que não consegui estagnar. Os dias ficaram maiores mas a partilha, que já não existe, mantém-se inalterada. Ainda assim, o que tenho para ti aqui são só palavras. Isso e as canções que insistem em tocar, para que nunca deixe de saber que existes e estás longe. Nos entretantos, o sol continua a nascer todos os dias e eu passei a acordar mais cedo. Tropeço nos fusos horários trocados, para fingir que ainda dormes na almofada ao lado da minha. Mas a única almofada que se deita na cama onde durmo é a minha e eu sei que tu não vens. Porque, na verdade, estás só à espera que eu volte.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Celebration...

Naquele dia, o silêncio era de festa. Celebrávamos as reticências da existência: serpentinas ao alto e respiração compassada. Celebrávamos, como quem espera pela chuva no verão, porque tu nunca chegaste a aparecer. Celebrávamos, eu e a televisão desligada, feita caixa de cartão vazia e por abrir. Um bilhete com um recado que nunca soubeste ler. Mas, como sempre, tiveste razão. As palavras têm esquinas que nunca consegui dobrar.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

No princípio era o verbo...

Já não existem palavras nesta cidade. As canetas esgotaram-nas. Por isso, não se escreve mais neste lugar. O que ainda se consegue ouvir é apenas o que sobrou dos anos em que nada se dizia. São sons amorfos, meio ocos. Lá ao fundo, alguns ecos ainda ressoam pelas paredes bafientas. Os prédios abandonados não guardam mais que corredores vazios e apagados. Aqui, falamos só por gestos. Os mais afortunados criam novos espaços com as cordas de uma qualquer guitarra perdida e achada no meio da rua. Tocam-na como se tocassem piano, como se o dedilhar tornasse cada corda numa tecla, aproximando-os daquele mundo virtual.

As palavras morreram asfixiadas pela tecnologia. Pelo menos na sua grande maioria. As poucas que conseguiram resistir aos ecrãs e aos teclados acabaram por se suicidar. Os fios e os botões desintegraram a poesia e a voz não serviu para substituir nem sequer uma linha de uma folha de papel. E isso foi o suficiente para que o tempo e o espaço desistissem de passear na escuridão. Não há poesia, não há narrativa. Não se contam histórias quando já nem os sonhos permanecem intactos.

Mas o mundo continua a girar...