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domingo, 26 de agosto de 2012

#15

Acordou embrulhada na ressaca do dia anterior. Ainda antes de abrir os olhos, lembrou-se das misturas da noite anterior. Os copos a ir e vir, o vinho branco, a coca-cola, o moscatel. O sol já se tinha levantado, mas não havia relógio no mundo que lhe pudesse dizer que, realmente, era tarde demais. Apesar de tudo, aproveitou o embalo da luz do dia para seguir o cheiro a pequeno-almoço. Desceu as escadas e reviu o cenário de manhãs abandonadas há anos atrás. Ali estava ele, de janela aberta para Lisboa, como se a cidade fosse a sua nova musa, a cozinhar uma refeição para dois. O ele e o ela transformado em nós, mais uma vez. Inicialmente, achou que o álcool continuava a toldar-lhe a percepção, mas os sacos de compras cheios de comida matinal não mentiam. Lá ao fundo, ouviam-se as verdades de outros dias, na voz de Camané. O sorriso dele convenceu-a de que a noite talvez pudesse não ter sido um desastre tão grande como imaginara."Trouxe os teus cereais preferidos." 

Fotografia licenciada em Creative Commons por tavopp

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Fado

Eu e tu na voz de alguém que dobra as esquinas da poesia como se respirasse em verso. Já tinha saudades desta nossa paixão de olhos fechados e páginas por ler, do teu cheiro a noites de inverno e tardes de verão em Lisboa, do que fazes tremer cá dentro quando falas para mim. Andámos fugidios e desencontrados, mas apaixonei-me por ti outra vez. Duas vezes em simultâneo. Eu e tu, sozinhos, enquanto ressoas pelo meu quarto, com o volume no máximo. Ainda bem que voltaste a bater à minha porta, querido Fado.

sábado, 23 de maio de 2009

Canção #7

Se não matas a saudade
Quando morres de vontade
De pôr à saudade fim
É talvez porque preferes
Ter da saudade o que queres
E não me pedes a mim

É talvez porque preferes
Ter da saudade o que queres
Mas não me pedes a mim

A saudade em que me deixas
É penhor das tuas queixas
Por não dizeres a verdade
Bastava que me pedisses
De cada vez que me visses
O que pedes à saudade

Bastava que me pedisses
De cada vez que me visses
O que pedes à saudade

O que dás, se me não vês
Não consigo que me dês
Por timidez ou vaidade
E a saudade que vais tendo
Com ela vives, morrendo
Pr'a me matares de saudade

E a saudade que vais tendo
Com ela vives, morrendo
Pr'a me matares de saudade

Talvez seja o que tu queres
E é por isso que preferes
A saudade em vez de mim
Morrendo os dois de saudade
Temos toda a eternidade
Pr'a pôr à saudade fim

Morrendo os dois de saudade
Temos toda a eternidade
Pr'a pôr à saudade fim

Camané - Ciúme da Saudade