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terça-feira, 6 de novembro de 2012

Esplendor


Há músicas que sussurram mais alto aquilo que não conseguimos dizer. E adoptamo-las devagarinho numa espécie de busca incessante pela plenitude da comunicação. Os desastres do coração, os laços que atamos e desatamos ao longo dos dias, as expectativas e as promessas quebradas parece tudo largado ao seu expoente máximo quando nos agarramos aos substantivos de outras vozes. O esplendor da chuva que cai lembra os filmes que nunca vimos e as cenas que gostaríamos de protagonizar. Delicadamente, como se a subtil violência das letras alinhadas nos trouxesse novos planos. Grandes planos de cores cintilantes, dignos de um qualquer trabalho publicado no Vímeo. 

sábado, 28 de abril de 2012

#9

De repente, ficou a lembrança das sexta-feiras à noite no último quarto da casa. Ou das partidas no comboio da ponte rumo ao porto seguro de outros tempo. Não fazia ideia de quando tinha sido a última vez que tinha guardado o último dia útil da semana para si. Ouvir um disco, ler um livro, apagar a luz do quarto e ficar assim de estores levantados, a olhar para o lado de lá da janela. Ao longe, só se vêem as cortinas dos vizinhos. Neste pedaço de mundo, a vista não é desafogada e a vida também não. O jardim que espreita ali no fim da rua até tem relva que chegue para apanhar Sol, mas isso nunca deu para tirar a barriga da miséria.

O telefone está pousado em cima da cama, silencioso. O ritual constrói-se todo à espera da derradeira chamada. "Se fores seleccionada, ligamos-te à noite. Mesmo à noitinha, está atenta." Por esta altura, é quase meia-noite e os sonhos já não vivem por aqueles lados. Mas o telefone continua ali, de volume no máximo, para que, no caso de começar a tocar, se ouça por toda a casa. E num local fora do alcance dela, para que, no caso de começar a tocar, não se note que tudo o que estava a fazer nesse momento era estar à espera.

Do mal o menos, sempre deu para pintar as unhas nos intervalos da ansiedade. Mais uma semana sem roer a ponta dos dedos. Uma vitória nos tempos modernos, já que o nervosismo arruína sempre qualquer vontade de combater os vícios.  Do mal o menos, roer as unhas ainda não dá direito a internamento em clínicas de reabilitação, mas pouco deve faltar. Pensando bem, talvez fosse um daquele males que chegam por bem. Resolvia metade dos seus problemas. Talvez um pouco mais do que isso, nunca se sabe. Dizem os mais sabidos que são 28 dias desligados da sociedade. 

Quem lhe dera. Quem lhe dera...

Fotografia licenciada em Creative Commons por Anne Helmond

domingo, 12 de dezembro de 2010

O Natal é ali

Havia sempre o peso do Outono e do Inverno. Quando a chuva chegava, os sonhos diluíam-se no cheiro da cidade molhada, mesmo que a vida sorrisse, e sabia que o Natal era já ali. Assim que o cimento e o alcatrão deixavam de ver o sol, não havia amor que conseguisse arrastar a melancolia para longe do meu quarto. Mas este ano parece que o Inverno ainda não aterrou por aqui. Mesmo quando são cinzentas, as nuvens nunca pesam mais do que algodão. Compro uma dúzia de castanhas bem assadas e volto a saltar nas poças sem medo de sujar a roupa. E o Natal continua a ser ali.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Saudades Meteorológicas

Saudades de ver o céu sem uma única nuvem, de ver o sol dias a fio, de não ter de andar permanentemente com chapéu-de-chuva na mochila.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Chuva

Com o que chove lá fora, quase que estou capaz de jurar que, daqui a nada, o Noé passa ali com a sua Arca.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Dia #3 - Assentar arraiais e comprar panelas

Não sei se já vos tinha dito (não, não tinha), mas o meu quarto é GIGANTESCO. Estou a pensar seriamente em abrir um ringue de patinagem ou um campo de bola aqui. Aceitam-se outras sugestões de interesse. (notar que isto é apenas metade do meu desarrumado quarto).



Como tenho andado de um lado para o outro sempre a tratar de "cenas" e comprar o que me falta para viver - alguém sabe onde posso comprar uma panela e uma frigideira a preços decentes?! - ainda estou em modo "anti-social". Talvez amanhã perca a cabeça e vá explorar sozinha as zonas comuns da residência, mas tenho vergonha. (Não se preocupem, segunda-feira começam as aulas e eu começo a "fazer amigos"). A minha companheira de casa é chinesa e fala tão bem inglês como eu alemão, pelo que nos vamos entender bem (exacto...). Falei com ela uns 2 minutos se tanto, ao que parece ela é mais bicho-do-mato que eu, e tranca-se no quarto e tranca a casa e tranca tudo, sobretudo se estiver lá dentro. Mas foi uma fixe, e deixou-me utilizar a panela e a frigideira dela. Defeito: lava mal (tipo, mesmo mal) a loiça e a casa tem um cheiro esquisito, uma espécie de restaurante chinês underground.

Entretanto, hoje já não choveu, pelo que achei por bem comprar um chapéu-de-chuva. Pude passear (eufemismo para "estive-mesmo-quase-completamente-perdida") pelo centro da cidade enquanto procurava pelo resto das coisas - panelas! preciso de uma panela e de uma frigideira! Não percebi bem se hoje é carnaval por aqui, mas dei de caras com meia dúzia de pessoas bem mascaradas logo pela manhã. E uma míuda convicta de que era o Bill Kaulitz dos Tokio Hotel (para que conste ele nasceu em Leipzig), mas com os cabelos pintados de vermelho. De qualquer modo, a cidade é lindíssima, por isso já decidi que amanhã me vou perder de novo, e desta vez com máquina fotográfica na mochila (ao lado do dicionário, claro).

Já comprei comida decente, apropriada aos meus gostos mediterrânicos: 2 litros de leite, uns leites com chocolate para as minhas passeatas, atum, arroz, sal, azeite (deve ser uma coisa rara por cá, que foi um bem caro!), alho, cebola, manteiga e queijo. Quero mesmo comprar uma panela e uma frigideira para começar a fazer bifes e tal. Ah! Também comprei uma mega salada pronta a comer, com milho e feijão, para não abusar dos tachos da Shan. Daqui a bocado vou jantar.