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quinta-feira, 14 de junho de 2012

#11

Para trás ficaram as tertúlias de horas tardias e os beijos em sítios onde a intimidade de um amigo não permite. No gira-discos, a poesia brasileira resumia o que restava daquilo que tinham sido. Num compasso certo, entalado entre tempos e contra-tempos, os sonhos desfiavam-se vagarosamente num sambinha de tempos modernos. Os encontros e os desencontros insistiam em sair do armário, da gaveta, da caixa. "O amor é hiper quântico, sim senhora." Nesse dia, sentaram-se à beira-mar, para uma espécie de recapitulação do que se passou nos entretantos: os inícios e os fins, as marés incertas e os barcos que sobreviveram até ali. As garrafas de cerveja alinhavam-se com o pôr-do-sol. Parecia que tudo tinha mudado. (Quero aprender todos os sonhos que tenhas para me ensinar.) Ela sorria por dentro e por fora, num misto de pânico e ilusão: toda a gente sabe que as pessoas nunca mudam. 

Comeram os últimos pedaços de marisco enquanto o lusco-fusco pousou na areia e a banda sonora redesenhou o cenário. Entre as estrelas e o inevitável bafo dos trópicos, o buraco negro da sedução instalou-se. “So tell me you love me only for tonight...” A única coisa certa naquela praia era o rebentar das ondas lá ao fundo. E nem a tirania do calendário conseguia espartilhar os sonhos que renasciam no intervalo de cada suspiro. Nenhum deles sabia se iam começar a manhã embrulhados nos mesmos lençóis ou, sequer, se o pequeno-almoço vinha incluído na viagem. Mas nada disso interessava - aquela madrugada era infinita enquanto eles continuassem a beber. Olhos nos olhos, a promessa estava feita. Encheram os copos com a melhor sangria que o Mar das Caraíbas podia oferecer e brindaram “à sua”. Se o amor saísse dali intacto, não voltaria a ser desperdiçado.

"But the weekend's here started it right 
Even if I only get part of it right 
Live for today, plan for tomorrow 
Party tonight, party tonight 
You got your guards up, I do too. There’s things we might discover 
'Cause you got a path and I do too, we’re perfect for each other"
Drake - The Real Her

Fotografia licenciada em Creative Commons por cell105

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Promessas

O Pai escolheu a música que se ouve hoje. Um senhor de voz grave recita fados de outros tempos, daqueles em que a juventude não era apenas uma palavra que ele gostava que lhe assentasse bem. Sabe que a Mãe se derrete com as palavras que ali se vão cantando, e com a guitarra portuguesa que serve para que os miúdos aprendam a amar a poesia. Ao fim de tantos anos, ainda há a vontade de a agradar, a vontade de a fazer sorrir e suspirar e de a saber feliz porque ainda estão juntos. A verdade é que, quando os filhos chegaram, também chegou o medo de que a vida se tornasse só dos mais novos, que o amor que sempre fora de um e de outro deixasse de existir pelo amor aos pequenos. Havia sempre uma certa dose de ingenuidade naquela construção familiar, que a Mãe nunca acreditava ser possível amar o mundo inteiro ao mesmo tempo, mesmo sabendo que era ela quem mais pessoas amava. E essa ingenuidade possessiva que lhe polvilhava os dias cultivava-se através da carência afectiva que a caracterizava e que toda a gente teimava em querer colmatar. Nunca se percebeu se era essa a atitude mais sensata de ser tomada, mas havia sempre uma necessidade de fazer com que ela se sentisse amada - incondicionalmente. Por isso é que era tão importante dar-lhe a mão a cada minuto que passava ao seu lado, que havia sempre aquela ideia de que um dia ele podia partir.
Ele nunca partiu. Prometeu que ia ficar com ela para sempre e queria cumprir a promessa. Fazia parte dos objectivos de vida, juntamente com a educação dos pequenos. Queria fazer parte daquela família perfeita que se tinha desfeito algures pelo caminho, construí-la de volta com as suas próprias mãos e partilhá-la com aquela pessoa, como convém. Encontrou-a nas férias, numa praia qualquer. E ela estava lá desde sempre, quase como se estivesse à espera que fossem suficientemente crescidos para se entregarem assim. No dia em que se tornaram realmente novidades na vida um do outro, não houve nada que mudasse realmente. O que os tornou tão apaixonados e eternos foi a rotina que foram edificando, de forma descontinuada, em contra-tempo, quase como se fosse reggae (ou jazz, que o único reggae que ela gosta é na verdade dub). Os chocolates, os bolos e os gelados que foram comendo ao longo dos anos, para que o açúcar se entranhasse na personalidade de cada um.

sábado, 11 de abril de 2009

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A praia, a cidade e as músicas

Estive tanto tempo à tua espera, naquela praia. Sentada na areia, deitada na areia e dentro de água. Escrevia com os dedos o teu nome, que ainda não sabia, e atirava-te conchas para que olhasses para mim. Queria mesmo que olhasses para mim, porque me parecias ser a pessoa com quem me ia dar melhor. E dei. De todos, sempre foste aquele com quem tinha mais confiança e brincadeiras. Nada de grandes intimidades, não, que o Verão não serve bem para isso. Mas existia aquela segurança de quem sabe que, se fosse preciso, havias de estar sempre lá, mesmo que o lá fosse aqui, fora da praia. Antes de sermos como deve ser, quase existimos um dia em Lisboa. Um almoço perdido no Chiado, numa qualquer tarde de Dezembro há alguns anos. Tempo chuvoso, sem espaço para tudo aquilo que sempre fora o nosso habitat natural.

Afinal, nem eras diferente do que eu conhecia longe da cidade. Os prédios sujos e a multidão desalinhada do mundo mantinham-nos intactos, como se o frio do Inverno trouxesse o Alentejo para junto de nós. Tão perto e tão longe, como nos habituámos a estar um do outro, por causa daquela canção, que entretanto deixou de ser nossa. Espremeste aquele poema e entregaste-o a outra pessoa. (Não gosto que me troquem os poemas, sabes?...) Mas acabei por tapar os olhos depois de ler: a fingir que não foi nada. Lá no fundo, acabou por não ser. Passou um ano e as músicas mudaram sem que déssemos conta. Não falámos sobre isso, não pensámos sobre isso. A praia estava à espera que existíssemos de novo.