Nos dias em que preciso de uma retro-escavadora para arrumar o quarto, preciso quase sempre de outra para me arrumar cá dentro. Sou uma hemeroteca com anos de jornais diários por arquivar. Além do caos dos papéis empilhados pela secretária, há o cotão que se acumula em cada pedaço de madeira do chão. A empregada teima em não aspirar o pó. Não faz mal. Hoje vou arrumar a secretária. Aspirar o chão. Arrumar o quarto. Hoje vou arrumar tudo o que está desarrumado por estes lados. Fazer aquilo que os mais sábios insistem de chamar "seguir com a vida". Andar para a frente, que para a frente é que é o caminho. Pena que a retro-escavadora só escave para trás.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
#3
Às vezes há a vontade de escrever mais. E normalmente - quase quase sempre -, é só porque se anda a ler mais. As palavras são assim: tendem a dar-nos tanto quanto lhes damos a elas. Do mal o menos, parece que de vez em quando acabamos por fazer as pazes. Qual casal apaixonado. Daqueles cujo amor anda sempre ali no limiar da irritação e do que não conseguimos aturar nem por nada. Amar e odiar em uníssono na mesma frase. Amanhã logo se vê para que lado acordamos. E se o que me trazem sempre dá para alimentar uns quantos sorrisos. Como quando nos encontramos nos transportes públicos, na esperança que o subúrbio tome um bocadinho melhor conta de nós.
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| Foto licenciada em Creative Commons por sk8geek |
domingo, 8 de janeiro de 2012
700 dias de ti
Foram mais de 700 dias de ti. Na altura, a viragem das duas décadas acenava a um sucesso com mais olhos que barriga. Ninguém nos tinha avisado que seria o maior desafio dos nossos dias. Nunca chegámos a chorar juntos, mas também nunca foi preciso. No meio de todo o desespero que se instalou na nossa segunda primavera, manteve-se sempre intacta a recordação daquele abraço. Tinha perdido o último comboio da noite e não tinha maneira de voltar para casa. Limpaste-me as lágrimas com o teu casaco e tomaste conta de mim nessa noite. Foste buscar-me à estação e levaste-me a passear pelo Bairro Alto, para que a angústia de estar abandonada em Lisboa não pesasse tanto. E assim ficámos até hoje. Ensinaste-me a gostar de novas palavras e aprendi milhares de universos no meio de cada sorriso e discussão. Pelo caminho quase perdemos os ursos polares, as mensagens a meio da noite e tropeções fortuitos entre a capital e os seus arredores. Mas salvou-se o mais importante: aquele abraço com mais de dois anos trouxe-nos até aqui. E manteve-se intacto. Obrigada.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
Dear D.
Não fossem os golfinhos e o Sado tinha tudo para ser perfeito. Do comboio da Fertagus à beira rio, tropecei em Setúbal demasiadas vezes sem tropeçar em ti. Mas sabia que aquele muro junto à água ainda havia de ser um bom palco para discorrermos sobre a dramaturgia do nosso encontro com o universo. Nesse dia não houve choco frito, nem barco para Tróia, nem Arrábida de fundo - nada do que me fazia apaixonar pela cidade. Um sumo do Pingo Doce e a promessa de que o prazer deve ser económico delinearam as frases do dia. Não havia planos, só havia dúvidas. E dívidas de amor que tardavam em saldar connosco. No fundo, era só aquilo: quatro mãos cheias de histórias paralelas que acabaram por dormir em quartos colados. E o orgulho de saber que faço parte dos teus dias quando dizes: "Vou exportar malmequeres".
domingo, 2 de outubro de 2011
Terceiro
Dizem que à terceira é de vez. Parece que sim. Este foi o terceiro blog que tive e o único que sobreviveu tanto tempo. Em três anos, sobreviveu aos meus amores e desamores, às mudanças de casa e de vida e às sucessiva faltas de vontade. Não ter vontade de ler, não ter vontade de escrever, não ter vontade de sentir. Coração ao alto e intelecto também. Às vezes, a única vontade que aqui mora é a de adormecer. E acordar dormente para sobreviver às batalhas que todo e qualquer dia seguinte prepara. Três anos, e dezenas de trincheiras, depois aqui está ele - um depósito de resquícios de existência que os meus dias não conseguiram absorver.
Estás crescido, os meus parabéns.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
#2
Gosto de pensar que o nosso amor é uma canção do Victor Espadinha. Afinal, foi em Setembro que te conheci. Palmela ainda transpirava os últimos bafos de Verão e a Península de Setúbal teimava em encerrar o Estio com festas que lembram sempre o Ribatejo. Tudo imaculadamente regado a álcool, como manda a tradição. Garrafas ao alto! Copos não, que isso é para meninos. E eu e tu, ali no meio da vila, parados em 1978, onde a bebedeira permitiu que nos encontrássemos. Que aqueles cinco versos podem muito bem ser um hino dos tempos modernos.
"Foi em Setembro que te conheci
Trazias nos olhos a luz de Maio
Nas mãos o calor de Agosto
E um sorriso
Um sorriso tão grande que não cabia no tempo"
Podia dizer que já não se fazem canções assim e provavelmente seria verdade. Os poemas de amor, mesmo aqueles cujos versos se desenham em prosa, já não vêm encharcados em lágrimas e promessas de eternidade. Longe vão os tempos em que as gavetas se enchiam de folhas esgravatadas com devaneios literários proporcionados por corações destroçados. Ou enamorados. Parece que já ninguém gosta de finais felizes. (Se bem que um final feliz é uma espécie de "não-final" e talvez por isso hoje em dia ninguém goste dele.) O que hoje sobrevive é a narrativa aberta, aquela em que não se sabe bem como é que a história acabou. Os novelos da tecnologia e a violência do imediato não nos deixam terminar nada. Quanto muito, terminam eles sozinhos: mudar de e-mail, mudar de número, perder o telemóvel. Daí que quando, por entre bits e bytes, se descobrem dedicatórias intermináveis, escritas com uma esferográfica de qualidade duvidosa, pedidos de desculpa e de namoro, o melhor mesmo é aproveitar. Como se aproveitam as canções de antigamente: num formato físico qualquer.
Agulha no vinil: o nosso amor é um gira-discos. Um gira-discos a tocar um single do Victor Espadinha.
"Foi em Setembro que te conheci
Trazias nos olhos a luz de Maio
Nas mãos o calor de Agosto
E um sorriso
Um sorriso tão grande que não cabia no tempo"
Podia dizer que já não se fazem canções assim e provavelmente seria verdade. Os poemas de amor, mesmo aqueles cujos versos se desenham em prosa, já não vêm encharcados em lágrimas e promessas de eternidade. Longe vão os tempos em que as gavetas se enchiam de folhas esgravatadas com devaneios literários proporcionados por corações destroçados. Ou enamorados. Parece que já ninguém gosta de finais felizes. (Se bem que um final feliz é uma espécie de "não-final" e talvez por isso hoje em dia ninguém goste dele.) O que hoje sobrevive é a narrativa aberta, aquela em que não se sabe bem como é que a história acabou. Os novelos da tecnologia e a violência do imediato não nos deixam terminar nada. Quanto muito, terminam eles sozinhos: mudar de e-mail, mudar de número, perder o telemóvel. Daí que quando, por entre bits e bytes, se descobrem dedicatórias intermináveis, escritas com uma esferográfica de qualidade duvidosa, pedidos de desculpa e de namoro, o melhor mesmo é aproveitar. Como se aproveitam as canções de antigamente: num formato físico qualquer.
Agulha no vinil: o nosso amor é um gira-discos. Um gira-discos a tocar um single do Victor Espadinha.
domingo, 19 de junho de 2011
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Proibido
Um dia chegamos à conclusão que toda a gente morre. Normalmente, os mais velhos morrem primeiro, mas, como em tudo na vida, há excepções. Primeiro morrem os avós. Depois os pais. Por último, os filhos. Todos morrem. Eu, tu, ele e os restantes pronomes pessoais. Um dia acordamos e apercebemo-nos que alguém à nossa volta deixou de existir. Ou pode deixar de existir. E aí, não interessam as saudades. Não interessa o que se fez, o que se disse o que se pensou. Interessa apenas e só o contrário. Interessam as vezes que errámos e não quisemos fazer melhor, as vezes em que tropeçámos na realidade e fomos de boca ao chão, interessa que caímos e não nos conseguimos levantar.
No dia seguinte, está sempre tudo na mesma. Talvez um pouco mais de tristeza em meia dúzia de corpos, mas nada mais. O mundo não pára quando alguém se vai embora. O luto é proibido. Ouviste bem? É PROIBIDO! Não há tempo para isso. Não há tempo para chorar. As lágrimas fazem arder os olhos e isso reflecte-se na produtividade. Não. Não. Não. É preciso engolir cada milímetro de desilusão. Quando estiveres de férias, logo ficas de rastos e passas os dias em casa fechada, de estores fechados, aos berros com a vida e com as injustiças deste universo. Agora não dá. E não dá, porque a jornada ainda mal começou.
És adulta. És meia-adulta. Mas uma daquelas metades que vale por uma unidade inteira. Vai mas é dormir, que amanhã há mais.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Interruptor
Nunca houve sossego no que sinto por ti. Nem mesmo quando o tempo passou, porque deixámos de existir. No dia em que apareceste, o céu deixou de estar tão longe e tudo passou a ser mera loucura. Mas a filosofia habitava os teus recantos, feita ciência exacta do que é ser humano. As tuas divindades familiares escorregavam, empurradas, para dentro do que se queria por "nós". E nunca houve senão a ilusão de um plural em que existíamos os dois. A música continuava a tocar, meio gasta, quase afónica, à espera que viesses carregar no botão. Desliga isto, por favor. Desliga, que eu já não te aguento mais.
terça-feira, 15 de março de 2011
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