sábado, 10 de março de 2012

#5

E depois existem as cidades. O betão armado e os tijolos empilhados, tudo bem arrumado em forma de casas, ou de escritórios, ou de lojas. Tanto faz. Tem é de estar tudo sujo e ferrujento. No fim de contas, não é o espaço que importa. Nem os prédios que se erguem até onde nunca conseguimos ver. O que nos esmaga a existência são os mais de oito (dez, dezoito, vinte e dois) milhões de vidas que se cruzam ali. Todos os dias. 24 horas. 7 dias por semana. Em versão ininterrupta, que as histórias que temos para contar também escolhem fins-de-semana e feriados. E a arte que temos esvai-se pelos carris do metro, das suas  incontáveis linhas e infinitas possibilidades de escolha. Onde ir, o que comer, como sobreviver aos quatro cantos de uma cidade que teima em nunca dormir. Luzes que nunca se apagam, tal como os talentos que se escondem atrás das escadas de emergência de cada edifício. Felizmente, a humanidade não se apaga como se apagam grafittis. Agora, restam apenas as assinaturas dos mais afoitos, que são também os que desenham pior. Queens, Bronx, Manhattan, Brooklyn. Headphones nos ouvidos, enquanto se escolhe qual a saída que nos dá mais jeito naquela estação. Hip-hop de fundo, nos 45 minutos de caminho até ao único reduto de sossego que resta neste pedaço de terra. Ouvem-se histórias de amor e desamor enquanto se entranha o sotaque de um inglês preguiçoso. Giram cabeças pelos chão, em acrobacias impossíveis, e desbravam-se novas dimensões do jazz, dos solos, da moda, da arquitectura, da performance. Qualquer milímetro deste chão é um palco em potência. Estrelas cadentes que nunca se vêem, porque vivem eternamente sob o luar. E os rios que separam as ilhas e as gentes não chegam para reflectir todos os astros. A noite ainda não vai alta e a procissão mantém-se sempre intacta, no adro de cimento que define todo o puzzle. Nunca vamos saber se o labirinto tem saída, sobretudo para quem sempre viveu dentro dele, mas ao fundo vê-se o mar. Welcome home.

Brigton Beach, NY

3 comentários:

Inês disse...

Estrelas cadentes que nunca se *vêem
;) beijinho

Débora Cambé disse...

Nova Iorque fez-te bem :) Mas vá, agora volta para casa *

Rute Correia disse...

Lapsos tipográficos corrigidos and me is back home. :)