segunda-feira, 30 de maio de 2011

Proibido

Um dia chegamos à conclusão que toda a gente morre. Normalmente, os mais velhos morrem primeiro, mas, como em tudo na vida, há excepções. Primeiro morrem os avós. Depois os pais. Por último, os filhos. Todos morrem. Eu, tu, ele e os restantes pronomes pessoais. Um dia acordamos e apercebemo-nos que alguém à nossa volta deixou de existir. Ou pode deixar de existir. E aí, não interessam as saudades. Não interessa o que se fez, o que se disse o que se pensou. Interessa apenas e só o contrário. Interessam as vezes que errámos e não quisemos fazer melhor, as vezes em que tropeçámos na realidade e fomos de boca ao chão, interessa que caímos e não nos conseguimos levantar. 
No dia seguinte, está sempre tudo na mesma. Talvez um pouco mais de tristeza em meia dúzia de corpos, mas nada mais. O mundo não pára quando alguém se vai embora. O luto é proibido. Ouviste bem? É PROIBIDO! Não há tempo para isso. Não há tempo para chorar. As lágrimas fazem arder os olhos e isso reflecte-se na produtividade. Não. Não. Não. É preciso engolir cada milímetro de desilusão. Quando estiveres de férias, logo ficas de rastos e passas os dias em casa fechada, de estores fechados, aos berros com a vida e com as injustiças deste universo. Agora não dá. E não dá, porque a jornada ainda mal começou.

És adulta. És meia-adulta. Mas uma daquelas metades que vale por uma unidade inteira. Vai mas é dormir, que amanhã há mais.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Interruptor

Nunca houve sossego no que sinto por ti. Nem mesmo quando o tempo passou, porque deixámos de existir. No dia em que apareceste, o céu deixou de estar tão longe e tudo passou a ser mera loucura. Mas a filosofia habitava os teus recantos, feita ciência exacta do que é ser humano. As tuas divindades familiares escorregavam, empurradas, para dentro do que se queria por "nós". E nunca houve senão a ilusão de um plural em que existíamos os dois. A música continuava a tocar, meio gasta, quase afónica, à espera que viesses carregar no botão. Desliga isto, por favor. Desliga, que eu já não te aguento mais.

sábado, 12 de março de 2011

Mixtape Do Amor Que Não Chegou

Embrulhou o cd no casaco por causa da chuva. Mas o problema nem era a música, era a colecção de letras de canções que tinha empacotado para lhe dar. Eram as canções do amor que não tinha chegado para mais. Escolhidas a dedo, com as partes importantes sublinhadas a marcador, para que ele não tivesse problemas a interpretar o que ouvia. No final de tudo, o amor resumia-se a isso - poesia, batida, melodia. Tudo junto, gravado em formato físico para que, ao menos, pudesse sobreviver às incompatibilidades tecnológicas que às vezes o mp3 traz. 
Quando chegou ao portão dele, tocou à campainha e pousou o que trazia no chão. Tinha parado de chover, mas o chão continuava molhado, e uma prenda assim não é coisa que se queira ver encharcada. Correu para a esquina, antes que alguém da casa a visse, e ficou a espreitar lá do fundo. Quando ele abriu a porta, o seu mundo tremeu outra vez. Escondeu-se quando ele tentou ver se havia alguém na rua. Conseguiu. Ele pegou em tudo e entrou em casa. Aquilo era o testamento da relação que não tinha resultado. Mesmo depois de estar tudo morto e enterrado, a cada coisa o seu devido lugar. E o de cada um iria ser sempre especial. Por isso, não teve dúvidas de quem o tinha deixado lá. No caderno cheio de palavras por entregar e embrulhar, a primeira página dizia só: "Mixtape Do Amor Que Não Chegou". Era verdade. Pelo menos o dele não tinha chegado. 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

"Regressa-se quase sempre ao que se amou. Às pessoas, aos livros, aos filmes, às imagens e às músicas, e aos lugares também."

sábado, 29 de janeiro de 2011

Filmes

Há filmes que são só filmes. 
Película. 
Palavra. 
Fotografia. 
Uma imagem qualquer em movimento, que devora a sua própria escuridão. As sombras que reflectem o mundo ficam à porta do cinema. Quando têm a sorte de entrar, nunca se sentam, que as cadeiras são frágeis e não aguentam o peso que cabe na sala. Tudo é visto à lupa de uma ciência a que chamam humanidade. Vemos. Ouvimos. Sentimos. Mas o toque nunca existe senão o da luz no ecrã branco. Queria dar-te a mão, para não teres medo de alguma coisa instalada algures entre o bilhete e o balde de pipocas que seguras. Can I keep you? Um dia, vou ser a estrela de cinema que te dá um beijo de boa noite, ternurento e apaixonado, antes de adormeceres. Mas só se tu quiseres muito mesmo, que não gosto de esbanjar doçura assim.
O filme continua a ser só um filme. Nem sequer se pode gabar de ser uma reles adaptação.
É só um filme.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fundamentalismos Cívicos

Podes não concordar com qualquer um dos candidatos, mas podes sempre marcar a tua posição. Podes votar em branco. Podes votar nulo. Mas vota. Não te esqueças que, se não votares, nem sequer tens moral para refilar no fim. A verdade é que somos nós quem os põe lá em cima. Eu, tu, os nossos pais, os nossos amigos, os nossos vizinhos. Se queres mudar o que achas que está mal ali, começa por sair de casa no domingo e vai votar. Mesmo que não votes em ninguém.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

#1

O comboio estava quase vazio, como era costume àquela hora. Tão ou mais vazio que o do Barreiro. Mas ela sabia que aquele tinha duas carruagens, pelo que mesmo estando vazio, arrastava sempre o peso das gentes empacotadas da linha de Sintra. Vá lá, ao menos hoje notava-se o cheiro dos milhares de banhos matinais. É sempre bom começar a semana limpinho - a segunda-feira nunca falhava. Ao menos isso.
Quando saiu, viu que afinal o mundo muda nos intervalos dos dias em que nada acontece. A estação que estaria pronta cinco anos depois do início - ou assim prometia a placa gigante do Ministério das Obras Públicas - já estava em fase de conclusão, apesar das quatro linhas planeadas serem ainda e apenas duas. E ela não tinha mudado de casa havia sequer um ano.
75km mais tarde, a percepção de universo pararelo à Lisboa que tanto amava era diferente. Linha de Sintra, Linha de Cascais, Oeiras, Margem Sul e aquele bocado para lá de Sacavém, que quase ninguém se lembrava que existe. E ali estava ela, suburbana convicta, filha de um dormitório que nunca adormece a frequência dos 60hz  (o zumzum dos carros lá ao fundo...). Salvava-se o facto de ter tido a sorte de viver num sexto andar, com vista desafogada, com direito a uma paisagem ainda verde e uma réstia de mar lá quase nos confins do horizonte.
Um dia, a densidade populacional dos prédios de dois elevadores deixou de a afogar. Mudou-se para o outro lado do Tejo, por força das circunstâncias, e a localidade rente ao IC19 deu lugar a uma vila. Mas uma vila sem o glamour do dois L's importados graças ao turista estrangeiro, nem o carimbo da UNESCO. Uma vila, no verdadeiro e desolador sentido rural da palavra, já que ter ido morar para ali tinha sido uma tragédia.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Página 129

Depois do último amor, ela tinha decidido que não ia mergulhar mais em palavras que não eram as suas. Não ia voltar a dedicar excertos de textos ou letras de canções. Não ia voltar a usar frases de outras canetas ou teclas para agarrar o amor de alguém. Não. Não. E não. 
Mas o Natal trouxe-lhe dois livros de poesia. Em vez de "Boas Festas", o postal do saco colorido trazia instruções claras, uma página específica. Não foi preciso procurar: já estava marcada com uma folha. Caligrafia pouco legível e uma dedicatória de tamanho A4. Afinal, ainda havia alguém que a fazia ficar de lágrima a descoberto no meio de um sorriso. Acabava sempre por resvalar tudo para a pieguice do amor. Paciência. Agora já estava. Tudo de novo. Uma vez mais. O medo, a insegurança e a vontade do para sempre. Mas ele deu-lhe o seu poeta preferido, aquele que ela nunca conseguia encontrar no meio de prateleiras e prateleiras de livrarias pela cidade fora - ele merecia o benefício da dúvida. Que no final de contas, o poema que ela mais tinha gostado nessa noite fora a prosa que ele encaixara nas quadrículas que marcavam o soneto da página 129.


"Não sei nunca se é isto exactamente
o que chamam amor - esta vontade
de imaginar assim a força que há-de
tornar-nos mais felizes de repente"
Fernando Pinto do Amaral

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010