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domingo, 30 de dezembro de 2012

#24

Tenho lido muita banda desenhada. O que significa que tenho lido muito. Ou, não sendo muito, tenho lido mais do que os últimos anos me têm deixado. É certo que a tecnologia ajudou, mas não fosse a derradeira força das palavras (e das imagens) e não estaria tão aconchegada esta noite. O hip-hop também tem tomado bem conta de mim. Parece que encontro de mim nos versos alheios aquilo que sei de cor mas não conheço. Ando sempre a nadar fora de pé. O sossego chega com o conforto de saber que não estou sozinha. É por isso que gosto de ler: porque aquece e arrefece o que está cá dentro, qual microondas de sensações. Quando abraçamos a língua com delicadeza, ela devolve-nos esse amor nas mesmas proporções. Na incerteza com que o mundo palpável nos brinda, salvam-nos as frases vagarosamente depuradas e as imagens feitas filosofia. Sim, as personagens dos livros são os retalhos das vidas em que tropeçámos algures. Nos quadradinhos deste álbum, os balões atafulham-se com letras manuscritas. Cada um com a sua tipografia, como se os ângulos de um símbolo definissem um pouco mais daquilo que somos. Ou do que fomos. Todos os dias, de capa ao pescoço. Heróis de narrativas que nunca vão ser deslindadas por outras pessoas. A conquistar identidades entre ser sujeito e qualquer predicado da existência.

in "Asterios Polyp" de David Mazzucchelli

segunda-feira, 26 de março de 2012

#7

Dez euros e três livros novos prontos a colocar na prateleira. Ainda não estudei os alinhamentos cósmicos, pelo que a arrumação ainda é ligeiramente incerta. Enquanto o horário de Verão fizer transpirar Lisboa, pode ser que arranje uma estante nova, onde os romances e os livros técnicos convivam harmoniosamente. A poesia e os ensaios que sosseguem o ego: tem de haver espaço para todos. A ordem, prometo, não será aleatória, mas a importância não será um factor determinante. Afinal, até essa é relativa, variando de acordo com os meses e com os anos. Lapsos temporais à parte, acumulam-se frases de reconhecimento pessoal e auto-destruição. Os sonhos alimentam-se das palavras que devoramos e das narrativas que conseguimos absorver.

Fotografia licenciada em Creative Commons por Johanna.B

terça-feira, 19 de outubro de 2010

#200

Nos entretantos, aqui o cantinho já ultrapassou a marca dos dois anos. Melhor ou pior, foi algo que tentei estimar e manter com algum carinho, mesmo quando não me apeteceu. Houve meses em que isto serviu de montra pessoal, para colmatar a distância a que estava do meu próprio mundo; na maioria das vezes, serviu apenas para colar alguns textos e meia dúzia de desabafos. Mas a decisão de abrir o estaminé veio numa altura boa, em que passei a escrever quando estava feliz, e não para exorcizar o que me ficava por dizer. (Usar bem as palavras no papel nunca foi sinónimo de as usar bem com a voz.) Era a primeira vez que me acontecia isso. E fazia sentido.

Dois anos, um mês e dez dias depois do início, a retrospectiva é inevitável. Muitas das certezas que fui construindo ficaram pelo caminho, mas outras mantiveram-se. Tropecei muitas vezes nos meus próprios erros, mas dediquei-me de coração a (quase) tudo o que me propus. E agora que há dias em que o sorriso custa a nascer, aparece sempre alguém que ainda o sabe desenhar na minha cara. Os alicerces de outros tempos mantêm-se intactos, mesmo que parte do meu universo tenha desabado. Mas, ao ducentésimo post, parece que já existe a consciência de que há aqui um retrato da minha pessoa. Incompleto, sim. Mas, como alguém me disse um dia, somos as narrativas que construímos - seja de nós para os outros, ou mesmo de nós para nós. O que importa é a história que imprimimos na vida de quem está ao nosso lado. E a maneira como o fazemos, claro. Há gostos para tudo: os que lêem só um capítulo (ou nem isso), os que lêem o livro apenas uma vez para depois o arrumarem na prateleira como prova do esforço heróico que fizeram para chegar ao fim, e os que guardam o livro em cima da mesa de cabeceira para que o possam ler sempre que quiserem. Os finais felizes, esses, dependem unicamente de quem nos interpreta.