Não acredito em Deus. Não acredito em metafísicas para lá do que a ciência nos explica. A vida ensinou-me a saber que nada cai do céu. Não há cá destino. E não, também não há milagres. Mas existem as pessoas e o que elas sentem. Existe a vontade de ser mais e maior. De dar um mundo inteiro a alguém só porque gostamos dela com verbos mais fortes. Nesta vida, não aceito determinismos - "o que tiver de ser será". Não. Porque as coisas só são quando fazemos por isso. Quando deixamos o orgulho em casa, e vamos à luta mesmo já quase sem nada por que lutar.
Limpou as lágrimas e levantou a cabeça. Desta vez não o ia deixar fugir. Chamava-se Amor.
Não vale a pena seguir caminhos que não nos pertencem. Quando chegaste, havia espaço para os dois. Mas a nossa estrada ficou estreitinha e agora temos de nos apertar demasiado para cabermos lá ao mesmo tempo. Relembro os erros de antigamente um por um, e escorrego devagarinho para a frente. Desta vez, não vai ficar nada por dizer, por fazer, por sentir. Desta vez, vou conseguir engolir o orgulho e os amuos e vou correr. Desta vez, não me vou arrepender no fim.
Quando um não quer, dois não dançam. Nós estamos parados no meio da pista há já quase demasiado tempo. Provavelmente, só nos esquecemos da coreografia. Mas o espectáculo assim não pode continuar.
Cansada. Ligeiramente desmotivada por entre recortes de sonhos que vão ficar pelo caminho (mesmo que seja só por agora). O meu telemóvel tira fotografias bonitas e sou eu que carrego no botão. Ainda ouço música boa, mas começo a ter demasiados guilty pleasures. Ainda gosto de ti, mas tu não queres nada comigo. Recomeçar a demanda de enviar currículos para todo o lado. Quero um ordenado. Quero uma casa só para mim. Uma hora e meia para chegar a casa. O barco partiu. Duas horas para chegar a casa. Sossego. Quero um fim-de-semana só para nós. Lembras-te das coisas simples da vida? É só isso: miminhos. Puntz puntz puntz. MP3 sem bateria e sem espaço para o que quero ouvir hoje. Não sei o que quero ouvir hoje. Estúdio, microfone, rádio. A minha voz a sair de uma coluna qualquer. Hoje não, nem amanhã, nem sequer depois de amanhã. Está quase a acabar. Ainda falta tanto, ainda nem sequer comecei. Estou a ficar pelo caminho sem dar conta. É preciso dar mais, é preciso dar mais, é preciso dar mais. Sempre mais, mesmo que já não exista mais nada para dar. Já falta pouco para acabar. Recomeçar do zero. Inteligência, trabalho, vontade. O amor pelo que sabemos ser nosso não se perde, mas ficou algures lá para trás. Já posso chorar? É só um bocadinho. No fim levanto-me e vou-me embora. Prometo.
Costumava usar letras de músicas para te ir dizendo o que sentia, mesmo tendo jeito com as palavras. As aspas aligeiravam sempre a questão. Era uma maneira fácil de me desculpar pelo facto de tudo parecer tão exacerbado - as palavras não são minhas, meu amor. Mas mesmo assim tu nunca respondias e eu comecei a acumular livros de canções em casa. Um dia cansei-me. E passei a ouvir só instrumentais.
O Pai escolheu a música que se ouve hoje. Um senhor de voz grave recita fados de outros tempos, daqueles em que a juventude não era apenas uma palavra que ele gostava que lhe assentasse bem. Sabe que a Mãe se derrete com as palavras que ali se vão cantando, e com a guitarra portuguesa que serve para que os miúdos aprendam a amar a poesia. Ao fim de tantos anos, ainda há a vontade de a agradar, a vontade de a fazer sorrir e suspirar e de a saber feliz porque ainda estão juntos. A verdade é que, quando os filhos chegaram, também chegou o medo de que a vida se tornasse só dos mais novos, que o amor que sempre fora de um e de outro deixasse de existir pelo amor aos pequenos. Havia sempre uma certa dose de ingenuidade naquela construção familiar, que a Mãe nunca acreditava ser possível amar o mundo inteiro ao mesmo tempo, mesmo sabendo que era ela quem mais pessoas amava. E essa ingenuidade possessiva que lhe polvilhava os dias cultivava-se através da carência afectiva que a caracterizava e que toda a gente teimava em querer colmatar. Nunca se percebeu se era essa a atitude mais sensata de ser tomada, mas havia sempre uma necessidade de fazer com que ela se sentisse amada - incondicionalmente. Por isso é que era tão importante dar-lhe a mão a cada minuto que passava ao seu lado, que havia sempre aquela ideia de que um dia ele podia partir.
Ele nunca partiu. Prometeu que ia ficar com ela para sempre e queria cumprir a promessa. Fazia parte dos objectivos de vida, juntamente com a educação dos pequenos. Queria fazer parte daquela família perfeita que se tinha desfeito algures pelo caminho, construí-la de volta com as suas próprias mãos e partilhá-la com aquela pessoa, como convém. Encontrou-a nas férias, numa praia qualquer. E ela estava lá desde sempre, quase como se estivesse à espera que fossem suficientemente crescidos para se entregarem assim. No dia em que se tornaram realmente novidades na vida um do outro, não houve nada que mudasse realmente. O que os tornou tão apaixonados e eternos foi a rotina que foram edificando, de forma descontinuada, em contra-tempo, quase como se fosse reggae (ou jazz, que o único reggae que ela gosta é na verdade dub). Os chocolates, os bolos e os gelados que foram comendo ao longo dos anos, para que o açúcar se entranhasse na personalidade de cada um.
Sento-me sempre do lado da janela no barco, mas não é que olhe lá para fora assim tanto quanto isso. Quando não estás, a contemplação traz consigo o terror das lágrimas. Que o mais difícil de suportar na tua ausência é o ter de guardar tudo para mim. Por isso hoje nem fiquei chateada pelo facto de metade das luzes da Ponte 25 de Abril estarem desligadas. Assim ao menos não há a tentação de sorrir, muito embora o sorriso nunca chegue a aparecer efectivamente. Apesar de ter posto o coração em stand-by enquanto espero por ti, a minha vida continuou quase como se nada fosse. Imagina um comboio - uma locomotiva que puxa um vagão, que vem sempre tão lá atrás que nem parece fazer parte do comboio. É aí que vive o meu coração. Dormente. A bater devagarinho... Para ver se nada muda demasiado durante este espaço de tempo em que não me queres ver. Nem mesmo o meu lugar à janela.
Era capaz de jurar que tinha tropeçado em ti quando entrei no metro, só pelo perfume. A quantidade exagerada fez-me rever a ilusão. A verdade é que há sempre qualquer coisa de ti no cheiro que invade Lisboa seja em que dia for. Porque já te cheirei em todas as estações do ano. E agora que o inverno tarda em acabar (já te disse que hoje, apesar da chuva, acordei com os passarinhos a cantar debaixo da minha janela?), apetece-me respirar-te enquanto me perco pela cidade. Quando chegar aquele aroma de verão transpirado, quero cheirar-te de novo.