sábado, 12 de março de 2011

Mixtape Do Amor Que Não Chegou

Embrulhou o cd no casaco por causa da chuva. Mas o problema nem era a música, era a colecção de letras de canções que tinha empacotado para lhe dar. Eram as canções do amor que não tinha chegado para mais. Escolhidas a dedo, com as partes importantes sublinhadas a marcador, para que ele não tivesse problemas a interpretar o que ouvia. No final de tudo, o amor resumia-se a isso - poesia, batida, melodia. Tudo junto, gravado em formato físico para que, ao menos, pudesse sobreviver às incompatibilidades tecnológicas que às vezes o mp3 traz. 
Quando chegou ao portão dele, tocou à campainha e pousou o que trazia no chão. Tinha parado de chover, mas o chão continuava molhado, e uma prenda assim não é coisa que se queira ver encharcada. Correu para a esquina, antes que alguém da casa a visse, e ficou a espreitar lá do fundo. Quando ele abriu a porta, o seu mundo tremeu outra vez. Escondeu-se quando ele tentou ver se havia alguém na rua. Conseguiu. Ele pegou em tudo e entrou em casa. Aquilo era o testamento da relação que não tinha resultado. Mesmo depois de estar tudo morto e enterrado, a cada coisa o seu devido lugar. E o de cada um iria ser sempre especial. Por isso, não teve dúvidas de quem o tinha deixado lá. No caderno cheio de palavras por entregar e embrulhar, a primeira página dizia só: "Mixtape Do Amor Que Não Chegou". Era verdade. Pelo menos o dele não tinha chegado. 

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

"Regressa-se quase sempre ao que se amou. Às pessoas, aos livros, aos filmes, às imagens e às músicas, e aos lugares também."

sábado, 29 de janeiro de 2011

Filmes

Há filmes que são só filmes. 
Película. 
Palavra. 
Fotografia. 
Uma imagem qualquer em movimento, que devora a sua própria escuridão. As sombras que reflectem o mundo ficam à porta do cinema. Quando têm a sorte de entrar, nunca se sentam, que as cadeiras são frágeis e não aguentam o peso que cabe na sala. Tudo é visto à lupa de uma ciência a que chamam humanidade. Vemos. Ouvimos. Sentimos. Mas o toque nunca existe senão o da luz no ecrã branco. Queria dar-te a mão, para não teres medo de alguma coisa instalada algures entre o bilhete e o balde de pipocas que seguras. Can I keep you? Um dia, vou ser a estrela de cinema que te dá um beijo de boa noite, ternurento e apaixonado, antes de adormeceres. Mas só se tu quiseres muito mesmo, que não gosto de esbanjar doçura assim.
O filme continua a ser só um filme. Nem sequer se pode gabar de ser uma reles adaptação.
É só um filme.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Fundamentalismos Cívicos

Podes não concordar com qualquer um dos candidatos, mas podes sempre marcar a tua posição. Podes votar em branco. Podes votar nulo. Mas vota. Não te esqueças que, se não votares, nem sequer tens moral para refilar no fim. A verdade é que somos nós quem os põe lá em cima. Eu, tu, os nossos pais, os nossos amigos, os nossos vizinhos. Se queres mudar o que achas que está mal ali, começa por sair de casa no domingo e vai votar. Mesmo que não votes em ninguém.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

#1

O comboio estava quase vazio, como era costume àquela hora. Tão ou mais vazio que o do Barreiro. Mas ela sabia que aquele tinha duas carruagens, pelo que mesmo estando vazio, arrastava sempre o peso das gentes empacotadas da linha de Sintra. Vá lá, ao menos hoje notava-se o cheiro dos milhares de banhos matinais. É sempre bom começar a semana limpinho - a segunda-feira nunca falhava. Ao menos isso.
Quando saiu, viu que afinal o mundo muda nos intervalos dos dias em que nada acontece. A estação que estaria pronta cinco anos depois do início - ou assim prometia a placa gigante do Ministério das Obras Públicas - já estava em fase de conclusão, apesar das quatro linhas planeadas serem ainda e apenas duas. E ela não tinha mudado de casa havia sequer um ano.
75km mais tarde, a percepção de universo pararelo à Lisboa que tanto amava era diferente. Linha de Sintra, Linha de Cascais, Oeiras, Margem Sul e aquele bocado para lá de Sacavém, que quase ninguém se lembrava que existe. E ali estava ela, suburbana convicta, filha de um dormitório que nunca adormece a frequência dos 60hz  (o zumzum dos carros lá ao fundo...). Salvava-se o facto de ter tido a sorte de viver num sexto andar, com vista desafogada, com direito a uma paisagem ainda verde e uma réstia de mar lá quase nos confins do horizonte.
Um dia, a densidade populacional dos prédios de dois elevadores deixou de a afogar. Mudou-se para o outro lado do Tejo, por força das circunstâncias, e a localidade rente ao IC19 deu lugar a uma vila. Mas uma vila sem o glamour do dois L's importados graças ao turista estrangeiro, nem o carimbo da UNESCO. Uma vila, no verdadeiro e desolador sentido rural da palavra, já que ter ido morar para ali tinha sido uma tragédia.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Página 129

Depois do último amor, ela tinha decidido que não ia mergulhar mais em palavras que não eram as suas. Não ia voltar a dedicar excertos de textos ou letras de canções. Não ia voltar a usar frases de outras canetas ou teclas para agarrar o amor de alguém. Não. Não. E não. 
Mas o Natal trouxe-lhe dois livros de poesia. Em vez de "Boas Festas", o postal do saco colorido trazia instruções claras, uma página específica. Não foi preciso procurar: já estava marcada com uma folha. Caligrafia pouco legível e uma dedicatória de tamanho A4. Afinal, ainda havia alguém que a fazia ficar de lágrima a descoberto no meio de um sorriso. Acabava sempre por resvalar tudo para a pieguice do amor. Paciência. Agora já estava. Tudo de novo. Uma vez mais. O medo, a insegurança e a vontade do para sempre. Mas ele deu-lhe o seu poeta preferido, aquele que ela nunca conseguia encontrar no meio de prateleiras e prateleiras de livrarias pela cidade fora - ele merecia o benefício da dúvida. Que no final de contas, o poema que ela mais tinha gostado nessa noite fora a prosa que ele encaixara nas quadrículas que marcavam o soneto da página 129.


"Não sei nunca se é isto exactamente
o que chamam amor - esta vontade
de imaginar assim a força que há-de
tornar-nos mais felizes de repente"
Fernando Pinto do Amaral

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Festival NetaudioLX - Call For Entries

O primeiro festival de netaudio de Lisboa, com financiamento aprovado ao abrigo do Orçamento Participativo da CML vai mesmo avançar. Assim sendo, o NetaudioLX tem data marcada para os dias 14, 15 e 16 de Abril de 2011 e terá lugar no Cinema S.Jorge.

O Call For Entries está, então, de pé. Enviem as vossas propostas para as várias modalidades até ao dia 20 de Janeiro.

Feira de Netaudio - deverá decorrer durante os vários dias de festival. Cada netlabel terá uma banca de exposição onde poderão mostrar o vosso catálogo, bem como vender merchandising - por exemplo. As ideias são infinitas e ficam ao agrado de cada um. Para garantirem o vosso lugar, deverão enviar um mail para netaudiolx [at] gmail.com , iniciando o subject com [Feira NetaudioLX]

Artistasserá assegurado um cachet, bem como as despesas de transportes e alimentação. A actuação será realizada numa das noites do evento, em palco misto: nacional e internacional. Enviem as vossas propostas através da Dropbox do festival no Soundcloud, ou via PearlTrees.

Papers, Conferências, Mesas Redondas, Workshops e Afins estas actividades deverão decorrer durante os vários dias do festival. As propostas devem ser enviadas para o mail netaudiolx [at] gmail.com , iniciando o subject com [OpenMic], ou submetidas através do PearlTrees.
Posto isto, fica o convite para se juntarem às páginas oficiais do Facebook e Twitter do NetaudioLX.


Boa sorte e bom trabalho!


domingo, 12 de dezembro de 2010

O Natal é ali

Havia sempre o peso do Outono e do Inverno. Quando a chuva chegava, os sonhos diluíam-se no cheiro da cidade molhada, mesmo que a vida sorrisse, e sabia que o Natal era já ali. Assim que o cimento e o alcatrão deixavam de ver o sol, não havia amor que conseguisse arrastar a melancolia para longe do meu quarto. Mas este ano parece que o Inverno ainda não aterrou por aqui. Mesmo quando são cinzentas, as nuvens nunca pesam mais do que algodão. Compro uma dúzia de castanhas bem assadas e volto a saltar nas poças sem medo de sujar a roupa. E o Natal continua a ser ali.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mudam-se os tempos...

Mudam-se as vontades. Que aquilo que precisamos afinal só depende do que vivemos antes e do que queremos viver depois. Os sonhos de sempre esborracham-se de novo na minha janela e dizem-me para acreditar, porque desta vez é que é a sério. Que as coincidências são muito mais do que o cérebro faz parecer. Simetrias que se desenham no tempo e no espaço e personalidades que se sabem ler.

Shiu...

Não é preciso dizer mais nada. Não há expectativas nem pressões. Uma garrafa de whisky, um jantar a dois e canções para a sobremesa. Ritmos e melodias. Texturas e notas que se encaixam umas nas outras como se estivessem apaixonadas. A menina dança? Sempre quis ter alguém que dançasse comigo. Falamos por cima da música, mesmo que a música fale por nós, para que não fique nada por dizer nos intervalos do som. A cabeça que se encosta no ombro, a mão na cintura/a mão no ombro e os dedos que se entrelaçam devagar. "Dançar é chamar corpo ao pensamento, é ir atrás do mar quando o mar vem atrás de nós..." Se quiseres, dançamos a noite toda. Se quiseres, dançamos a vida inteira.


É o se, é o se, é o se... é um encolher de ombros infinito... É mudar uma vírgula para fazermos uma frase nova...