Como se desse para montar e desmontar, qual móvel do IKEA. É verdade que se constrói. Mas se vamos por esse caminho, também podemos fazer a analogia com a jardinagem. Afinal, o amor também se cultiva, rega, poda, essas coisas todas. Sem verdades absolutas, o amor é tipo a Anatomia de Grey, onde nunca há pares ou camas certas. Ou o novo cartaz de publicidade ao Sumol Limão, que sabe ao que nós quisermos. Por isso é que nunca sabemos defini-lo: depende de nós e dos outros. O sentimento, as declarações e as soluções mudam como as colecções de uma qualquer loja de roupa num centro comercial. Sim ou não. Felicidade ou desgosto. O amor é a dicotomia de cada existência resumida num instante: festa, ressaca, descanso. A sucessão de (quase) tudo o que quisermos ou nos dispusermos passar. Sendo o que preferirmos, vejo-o como um cubo de Rubik. Queremos desesperadamente completar cada lado, mas as 43.252.003.274.489.856.000 possibilidades jogam sempre contra nós e a teoria do caos refastela-se alegremente pelos nossos dias. Por enquanto, é continuar a girar.
Fotografia licenciada em Creative Commons por Toni Blay
"Um dia, o mais provável é tornares-te um chato, deixares de sair à noite e levar-te demasiado a sério. Nesse dia, vais começar a vestir cinzento e bege, pedir para baixar o volume da música e deixar a tua guitarra a apanhar pó. Vais tornar-te politicamente correcto, socialmente evoluído, economicamente consciente. Vais achar que tens de ir para onde toda a gente vai e assumir que tens de usar fato e gravata todos os dias. Nesse dia, vais deixar de beijar em público, as tuas viagens serão mais vezes no sofá e dormirás menos vezes ao relento. É oficial. Vais entrar na idade do chinelo e deixar de ser quem foste até então. Vais deixar de te sentar ao colo dos amigos e vais esquecer-te como se faz um quantos-queres ou um barco de papel. Vais ficar nervosinho se não trocares de carro de quatro em quatro anos e desatinar se o hotel onde estiveres não te der toalhas para o teu macio e hidratado rosto. Vais tornar-te muito crescido e começar a preocupar-te com tudo e com nada e a não fazer nada porque "vai-se andando" e a vida é mesmo assim. Vais dizer não mais vezes, vais ter mais medo, vais achar que não podes, que não deves, que tens vergonha.
Vais ser mais triste. (...)
Aqui fica uma ideia: quando esse dia chegar, não lhe fales."