sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Escrevo-te

Há sombras que moram nas paredes do meu quarto. Recortes e desenhos imprecisos de coisas que nunca soube. Quando a janela se abre, o frio entra e começo a tossir. É melhor ir buscar uma manta para me tapar. Vou. Nestas noites de gelo e solidão, a companhia dos tecidos reconforta a alma. Mas que alma? Não sei se acredito nisso. Metafísicas decadentes de quem não sabe em que acreditar para além da vida. Fico-me como o outro: "Há metafísica bastante em não pensar em nada". Deixo-me estar sem pensar. Não penso em nada que não apreenda com os sentidos - o que me faz sentir, portanto. O resto é tudo mentira. Não há Deus, não há metafísica, não há alma. Há apenas o Homem: matéria, biologia e sociedade. Isso e a televisão despenteada que nunca pára de gritar, mesmo que seja baixinho. E eu, que estou tão velha, já não tenho paciência para meios de comunicação. Perdão, já não tenho paciência para comunicação - ponto. Tudo se atrofia à minha volta, enquanto abro a mão direita e pego numa caneta. Gostava de te escrever uma carta, mas as palavras estão todas cansadas. Dormentes como eu. Está tudo doente do pó e do barulho e da cidade. Está tudo doente dos prédios que se amontoam neste miserável pedaço de terra. O verde da relva não respira por estas bandas, porque simplesmente não há relva. Nem árvores. Nem flores. Nem ecopontos. A única coisa que se recicla aqui são os sonhos - migalha inexplicável de (in)consciência - que é a dormir que somos felizes.

Escrevo-te para que me leias sempre que quiseres e não apenas quando estás comigo...

3 comentários:

Anónimo disse...

"enquanto abro a mão DIREITA e pego numa caneta" opah...que discriminação! Assim, se quisesse, já não podia fazer minhas as tuas palavras. 'tá mal!*

André Godinho disse...

Que texto bonito e bom! :)

Maria disse...

Não há nada, senão mantas.

Gostei *