quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Entalada

Quando deu por si, era tarde demais. O “pipipi” das portas que estão prestes a fechar foi menos brando do que o costume e acabou por ficar assim, a modos que entalada nas portas do Metro. Tudo se resumia a isso. Estava ali, entalada. No permanente vai não vai, chove não molha, não f*de nem sai de cima. Ironia do destino, a dicotomia do entalanço vem no primeiro múltiplo de dois. A dualidade da vida moderna ditou que a dúvida se instalasse no trabalho e no amor. Who cares? Ninguém, claro. Ou seja, quase tantas pessoas quantas as que se importavam que naquele preciso instante ela estivesse entalada entre as desconfortáveis portas do metro lisboeta.

Talvez por isso levar com a porta na tromba tenha sido um abre-olhos daqueles que só aparece quando temos os olhos fechados. Pelo menos uma parte estava decidida: ia trabalhar para a florista da amiga. Não que fizesse particular questão em juntar flores como quem pinta um quadro. Afinal, nunca levara muito jeito para trabalhos manuais. Mas com o dia dos namorados à porta, havia a esperança de poder servir de copy a corações apaixonados e desinspirados. Modernices! Do mal o menos, o tempo perdido numa agência de publicidade dava-lhe alento e talento (talento não, que esse nunca lhe faltara) para tornar o mundo um bocadinho melhor. Ou apenas mais simpático. Como o senhor que a puxara para dentro da carruagem, quando a viu aflita e entalada. Afinal, era quase só isso que faltava (bastava?) na sua vida. Simpatia.

Foto licenciada em Creative Commons por Swamibu